:: ARTIGOS


:: O Coach Ineficaz
Vitor olhou nervoso para o relógio no canto inferior direito da tela. Terminava apressadamente de responder um último email, para não se atrasar para sua reunião. Num lapso de tempo em que seus dedos brevemente deixam o teclado, o texto é interrompido por uma seqüência relâmpago de pensamentos:
 
Há 7 meses, quando passou por sua primeira experiência de Coaching, sentia-se muito frustrado. Nada em seu histórico de recorrentes sucessos anteriores o havia preparado para o sentimento de fracasso que experimentava diante de novas responsabilidades. As noticias ruins não paravam de chegar, e ele sentia-se pela primeira vez em sua carreira objeto de conversas preocupadas de seus superiores.
 
Aos primeiros sinais de que a coisa desandava, tentou aumentar a energia dedicada ao trabalho, mas parecia que quanto mais forçava os resultados, mais imprudentes e distantes do ideal ficavam suas decisões. Não podia demonstrar esta insegurança e fraqueza a seus colegas, mas naquelas semanas de sufoco, percebeu-se mais de uma vez a atormentar os amigos e familiares com seus lamentos. Sentia-se esgotado física e intelectualmente.
 
Fruto do sofrimento daquele período, pensou em jogar a toalha – sair pela porta dos fundos da empresa. Talvez tivesse dado o passo maior que a perna, e não fosse talhado para aquele cargo. Ao mesmo tempo, não entendia porque uma parte de si gritava internamente que era capaz de muito mais, e mais que isto – QUERIA VENCER naquele desafio e conhecer os próximos passos que a vida reservava. Sentia-se estagnado.
 
Conheceu o coach indicado pela empresa, com uma postura defensiva. Achava que ele transmitia um certo desdém por suas preocupações, como se não as compreendesse em profundidade, ou fossem infundadas ou simples demais de resolver. As reuniões aconteciam inicialmente muito mais por imposição da empresa, do que por sua crença de que aquilo poderia ajudar. A simples posição de precisar de ajuda o deixava desconfortável.
 
Aos poucos, no entanto, esta impressão inicial foi dando lugar a grande empatia. Não sabia se era o fato do coach mostrar uma postura acolhedora (num ambiente profissional cada dia mais aversivo), ou se era a simples identificação daquela reunião com uma pausa alentadora em suas tarefas cotidianas. Naquela hora e meia de conversa, podia discutir suas preocupações e sentia-se ouvido. Não tinha que provar nada para ninguém, e não era interrompido.
 
Nessas conversas, expôs suas hipóteses e preocupações. Aquela figura tranqüila e confiante à sua frente gerava sentimentos ambíguos, de inveja e acusação. Sentia saudades do período anterior, em que também mostrara aquela segurança, e em que os resultados eram naturais, produzidos sem esforço. Acusava-se de ter perdido o equilíbrio, e estar agora naquela situação de explicar a um leigo as dificuldades de sua posição.
 
Voltando ao teclado, ao email e ao momento presente, rememorou as sessões de Coaching – de como se entediava com seu próprio discurso derrotista. Nem mesmo ele agüentava as lamentações. Percebeu após poucos encontros que se continuasse respondendo daquela forma, os resultados seriam os mesmos.
 
Sentindo o apoio do Coach, decidiu variar. As respostas instintivas foram então artificialmente substituídas, por alternativas que próprio sugeria frente a seu interlocutor. Artificialmente, porque sentia como respostas alheias a si mesmo. Não pertenciam a seu instinto, mas aprendeu a dar valor àquilo que funcionava – ainda que não fosse sua idéia imediata ou ponto de conforto.
 
E para seu alívio, as coisas voltaram para os eixos. Novas iniciativas reduziram a pressão e evitaram que cometesse outros desatinos. Passou a não perder tempo reclamando e mostrou-se mais disposto a tentar novas respostas. Aprendeu a coletar sugestões de uma nova parte de si – criadora e disposta, mas também de clientes, fornecedores, pares e subordinados. Ao mesmo tempo em que confiou menos em seu velho instinto, apostou em sua capacidade de superação e inovação. Hoje mesmo podia dizer que nunca evoluira tão rápido e tão facilmente. Novas possibilidades apareciam a cada momento, e ele sentia-se mais seguro para lidar com o novo.
 
Havia voltado para os trilhos, e logo em seguida dispensou a ajuda. Num balanço feito ao conversar com sua esposa, reconheceu que vivia um novo momento de confiança e prosperidade.
 
Todas as respostas e potenciais colocados em prática pareciam já ser seus, adormecidos e rapidamente colocados a seu serviço, quando necessários. O Coach estivera “ali”, no momento em que os desafios do dia a dia o fizeram disparar forças até então ocultas. Em que ele havia influenciado? Assistira de camarote os resultados serem colhidos. Teria ele algum mérito na evolução? O profissional se sentia confiante em suas capacidades. Desconfiava instintivamente que sim, mas não conseguia encontrar nenhuma contribuição concreta, a não ser o tempo livre que tivera com o profissional, tão bem utilizado por ele próprio para colocar as idéias em ordem. Será que ele teria tido todos aqueles insights sem a atuação do coach? Quem garante?

Fabio R. A. Michelete
fabio@liquiddesenvolvimento.com.br
http://www.liquiddesenvolvimento.com.br
Vinhedo - SP

É Psicólogo pela PUC-SP, Mestre em Psicologia Social e do Trabalho pela USP – reconhecido especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho pelo Conselho Federal de Psicologia.

É Coach formado pela ABRACEM (Assoc. Bras. de Coaching Executivo e Empresarial) em 2006.

Autor do romance "Aprendi a me Amar" (clique aqui) com mensagem sobre auto-desenvolvimento e fortalecimento da auto-estima.

Tem experiência com trabalhos de Planejamento Estratégico de RH, Revisão de estruturas de cargos e definição e avaliação de competências em empresas nacionais e multinacionais de diferentes portes e segmentos – sempre em acordo com as mais severas normas de qualidade. Sua dissertação de Mestrado é sobre o uso de métodos de avaliação de desempenho.

Realiza atividades de avaliação de Perfis individuais e em grupo para fins de seleção, análise de potencial e orientação de carreira, utilizando-se de modernas ferramentas de assessment.

É docente no MBA em gestão de Pessoas da FGV-Management, do MBA em Gestão Empresarial da FUNDACE-USP de Ribeirão Preto, e do MBA em Gestão Empresarial do IBG e Anhanguera Educacional.



 

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